Abril 29, 2005
Camille Claudel
Paris, século XIX.
Uma mulher decide quebrar os laços com sua classe social, com a moral vigente e com as normas de conduta bem aceitas em sua época. Foi considerada louca, internada por 30 anos num hospital psiquiátrico até sua morte depois de entregar-se furiosamente a sua arte e a um mau amante, escultor abastado e famoso. Ele, o imperecível Auguste Rodin. Ela, a intuitiva e talentosa escultora Camille Claudel, personagem de filmes, razão de poemas, mulher arrasada, infeliz e mal compreendida. Ingredientes que tornam a sua biografia fascinante aos olhares curiosos. Tudo o que se acrescente como condimento de frescas novidades sobre esta escultora, vitimada mais pela sociedade que pela loucura exerce, talvez por isso, um encanto hipnótico e avassalador.
Não se sabe porque cargas d´água uma certa intelectualidade sente prazer irresistível pela tragédia moral e exalta como ponto de virtude o sofrimento do artista. Ao que parece, quanto mais estilhaçados melhor; quanto mais dolorido, mais doce. O que importa em Claudel; aliás, o que deveria importar, seria destacar o seu alto valor estético, sua ruptura com uma manifestação escultural adormecida e que era já, depois de um certo tempo, construção oficial das formas em Rodin. Deveriam ser exaltadas estas coisas, não sua desgraça.
Não se pode negar o gênio a Rodin, mas deve-se questionar o quanto de preconceito e de sua postura como inverso de mestre prejudicaram um talento manifesto. Que não era mais florescente apenas, mas que exigia ar e aparecimento: ela, Camille. Ela, que num sopro poderia ser, sim, mais do que ele. E isso lhe era insuportável.
Camille era pouco conhecida do público. O reconhecimento de seu talento ficava restrito a artistas e intelectuais, mas mesmo entre eles o seu comportamento incomum assumia feições de desvario. Sua família era rica, mas a adolescente apaixonada pela escultura não se deixava ficar entre rapapés, na condição de mulher passiva e obediente, à espera de um marido bem aquinhoado e cordato, largada das coisas impuras da arte. Muito pelo contrário. Desde menina fugia de casa para extrair barro para suas esculturas. A mãe, no entanto, se opunha à ambição de ser artista da pequena Camille. A sociedade francesa, preconceituosa e machista, também colocava muros à sua frente. Ela tentou passar por todos eles. Era mulher, e a escalada se tornava ainda mais difícil. O lance crucial de sua vida ocorreu quando decidiu empregar-se no estúdio do escultor Rodin, com quem pouco tempo depois passa a conviver na condição de amante.
A união marginal atiçava os comentários. Uma jovem impetuosa e um homem rico, famoso e mais velho, convivendo sem casar oficialmente... Mas o fator determinante para os transtornos que se seguiriam a essa união não partiram exatamente daí. Tratava-se, no fundo, de um embate de natureza artística entre a intuição criativa de Camille e o apuro conquistado em anos de estudo pelo escultor oficial do governo francês, Auguste Rodin.
O rompimento entre os dois era a única saída para a sobrevivência criativa da jovem aluna que abalara de forma tão radical o universo artístico de seu mestre. Rodin não admitia as diferenças de potencial criativo entre ele e Camille. Quando a artista percebeu estar sendo usada por Rodin, veio o rompimento.
Camille ficou só. O irmão Paul Claudel, poeta, viajara para os Estados Unidos e lhe faltava mais esse amparo. Passou a criar obsessivamente; percebia-se, contudo, que perdia a sanidade. O golpe final veio quando, durante uma exposição, não conseguiu vender nenhuma escultura. O fracasso, o álcool, e agora o descrédito, somados às suas muitas decepções, fizeram-na indignar-se a tal ponto que, em dado momento, destrói as peças que havia criado.
Acaba interna como louca.
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REGINA BONAVITA - 5:53 PM
Abril 28, 2005
Foto by Philippe Pache
REGINA BONAVITA - 11:17 PM
Abril 24, 2005
O Continente Africano possui maravilhosos poetas. Um dos meus favoritos - José Craveirinha
Grito Negro
Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.
José João Craveirinha nasceu em Lourenço Marques, hoje Maputo - capital de Maçambique, em 28 de maio de 1.922.
Foi um auto-didata que desempenhou ao longo da dua vida diversas atividades tais como: jornalista, futebolista.
É um dos mais reconhecidos poetas da língua portuguesa e um dos maiores escritores africanos.
Na madrugada do dia 06 de fevereiro de 2.003, na Africa do Sul, morre o poeta moçambicano, vítima de doença prolongada.
Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.
Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.
Nem nada!
Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.
Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.
Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!
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REGINA BONAVITA - 7:54 PM
Abril 21, 2005
METADE DE MIM
O teu corpo, amor, mais que perfeito
é manhã preguiçosa de domingo
é tarde dourada, é luar de abril
é convite especial à festa da vida
O teu corpo, amor, tão generoso
é refúgio das minhas fantasias
é testemunha de recônditos segredos
é lenitivo dos meus medos
O teu corpo, amor, mais que sagrado
é o santuário das minhas preces
é harmonia perfeita do yin e yang
é pecado abençoado pelos deuses
O teu corpo, amor, já não é teu corpo
é pedaço de mim, metade do meu ser
e em cada gesto teu, que é meu próprio gesto
busco a eterna posse de mim mesma.
POESIA ENTRE LENÇÓIS
O desejo chegando, mansamente
aguçando escondidos sentidos
o cheiro do cio embriagando
o toque dizendo que existe o sonho
o olhar procurando o indefinido
o sussurro alternando com os gritos
a urgência de chegar ao paraíso
A fera dominada silencia
e do corpo suado e extenuado
brotam úmidos poemas de amor
E é depois que as almas voam
e encontram estrelas, e luas, e sóis
abraçadas voltam e encontram um lago:
é a poesia que ficou entre os lençóis...
Jane Raugust
REGINA BONAVITA - 6:09 PM
Abril 20, 2005
Gênio da dança com a alma de um fauno
Polêmico, atormentado, genial e esquizofrênico, o bailarino russo Vaslav Nijinsky traz em sua biografia os ingredientes exatos para compor à perfeição o perfil de um personagem romântico. Dono de uma personalidade ambígua, para dizer o mínimo, o mesmo Nijinsky que escandalizava as platéias com a ousadia de sua arte mostrava-se, fora dos palcos, uma criatura frágil e dependente. Um deus de sapatilhas que jamais soube conviver com as limitações impostas pela convivência social.
Nascido em 1888, Nijinsky iniciou nas aulas de ballet aos 9 anos, levado por sua mãe. O primeiro papel de destaque veio aos 18 anos, em Le Pavillon d´Armide. Em 1908 é apresentado ao empresário e diretor de balé Sergei Diaghilev (1872-1929), através de seu então namorado, o príncipe Pavel Lvov.
Carismático e de forte personalidade, Diaghilev dirigia com mão de ferro o Ballets Russes, criado por ele em 1909 com o objetivo de sacudir o marasmo que acreditava haver feito o ballet estacionar no tempo. O empresário, que sonhava com a europeização da dança russa, utilizava àquela época o talento do coreógrafo Michel Fokine (1888-1942), dos cenógrafos Leon Bakst /1866-1924) e Alexandre Benois (1870-1960), e dispunha de estrelas de primeira grandeza, como a legendária Anna Pavlova (1881-1931).
A apresentação a Diaghilev um divisor de águas na vida de Nijinsky causou forte impressão no rapaz, que escreveu mais tarde em seu diário: "Não gostei dele por sua voz segura. Evitei fazer amor com ele mas fingi, porque sabia que, de outro modo, minha mãe e eu morreríamos de fome". Há quem duvide da afirmativa, uma vez que o testemunho de Nijinsky foi cunhado quando o bailarino já apresentava distúrbios mentais. Há de se observar, também, que o relacionamento com Diaghilev havia sido marcado por paixão e desespero. O rompimento com o empresário é freqüentemente apontado como a causa que desencadeou o processo de desequilíbrio que arrastou ao limbo o maior mito da dança de todos os tempos.
A personalidade de Diaghilev não permitia que se lidasse com muita facilidade com o empresário. Incensado por seus contemporâneos ¿ sua companhia excursionava por todo o mundo e recebia colaborações de mestres como Claude Debussy, Maurice Ravel e Albert Roussel , corre a lenda de que Diaghilev tinha verdadeiro horror a doenças e tomava cuidados extremos para não se contaminar: vivia a limpar as mãos, não permitia que seus lábios fossem beijados e usava um lenço imaculadamente limpo para proteger a face. Também é notório o pavor que sentia de viajar em navios. Por haver uma cigana previsto que morreria afogado (o que efetivamente acabou ocorrendo), Diaghilev evitava a qualquer custo aventurar-se ao mar.
Quando a Nijinsky, apesar de fora dos palcos mostrar uma personalidade frágil, que buscava o apoio de Diaghilev (e mais tarde da mulher, Romola) para decisões mínimas, revestia-se de força descomunal ao encarar a platéia. Aliado a uma técnica perfeita, que mantinha hipnotizados os espectadores de sua dança, o carisma do bailarino deu ensejo a transformações significativas no panorama do ballet de seu tempo.
L´Après-midi d´un faune
Nijinsky amava um sonho
Seu maior triunfo foi elevar a figura masculina à mesma altura que o elemento feminino nos balés. Em alguns casos, tanto engenho e arte foram premiados ao manter cativos os olhos do público. O primeiro papel de destaque de Nijinsky depois que conheceu Diaghilev foi como Albrecht, em Giselle, que estreou em Paris em 1911. Com o mesmo papel o bailarino protagonizou seu primeiro escândalo: instado por Diaghilev, Nijinsky dançou sem o calção que cobria seu leotard (a malha justa usada pelos bailarinos). A performance ocorreu em São Petersburgo, em apresentação a que estava presente a família imperial.
O coquetel teve efeito imediato e custou a Nijinsky, logo no dia seguinte, sua demissão do corpo de ballet do teatro Mariinsky. O mais renomado biógrafo do bailarino, Richard Buckle, acredita que o episódio pode ter sido um ardil de Diaghilev para que Nijinsky perdesse o emprego e se tornasse exclusivo dos Ballets Russes.
No período em que trabalhou exclusivamente para Diaghilev, Nijinsky protagonizou alguns dos mais importantes ballets do inicio deste século. Quase todas as peças eram de autoria de Michel Fokine, então no auge da carreira: Le Espectre de la Rose, Petrushka, Daphne e Chloé, Narciso e Le Diesu Bleu (esse com libreto de Jean Cocteau). Foi um período de glória, com uma sucessão de excursões e êxito. Encorajado por Diaghilev, por quem mostrava verdadeira adoração, Nijinsky decide que as coreografias de Fokine já não suprem sua alma sedenta de novas experimentações e passa a criar seus próprios ballets. Indignado, Fokine abandona os Ballets Russes.
As três coreografias assinadas por Nijinsky L´Après Midi d´un Faune, Jeux e A Sagração da Primavera revolucionaram os círculos ligados à dança. L´Après Midi d´un Faune causou um escândalo sem precedentes ao ser apresentada em Paris a 13 de maio de 1912. O público que naquela noite foi ao Théâtre du Châtlet para assistir à estréia de Nijinsky como coreógrafo teve motivos de sobra para surpreender-se. Primeiro porque L´Après Midi mostrava uma sensualidade quase afrontosa para os padrões da época e depois porque rompia violentamente com as características fundamentais do ballet tradicional: em vez de tentar aprisionar os espectadores também com o olhar, nenhum dos bailarinos olhava de frente, todos mantinham-se de perfil diante da platéia, tratada com indiferença pelo coreógrafo. Mesmo a mudança de direção não fazia com que os espectadores pudesse contemplar os rostos: os bailarinos, com rápidos movimentos, trocavam o perfil esquerdo pelo direito. A sexualidade transbordava do fauno protagonizado por Nijinsky que, entretanto, em nenhum momento dava mostras de gestos sensuais, nem mesmo chegava a tocar as ninfas/bailarinas que lhe desatavam as amarras da imaginação. Mas por uma técnica quase sublime, o desejo do fauno é sensível. O fogo que lhe percorre as veias não está atestado senão por um sorriso de lascívia quase imperceptível, mas há paixão, há sexo e uma ousadia suprema. Volúpia de sonho e delírio. Audácia. Nijinsky escancara o rosto debaixo da máscara, revela a sensualidade escondida, abre as janelas. O final do ballet, com o bailarino simulando masturbar-se no palco, entrou para a história como o maior escândalo da dança neste século.
As outras duas coreografias: Jeux, sobre uma partida de tênis, e A Sagração da Primavera - não tiveram o reconhecimento que o bailarino esperava. Nesta última, sobre a música do genial Igor Stravinsky, Nijinsky elaborou uma coreografia que é sua mais arrojada criação. A história do sacrifício de uma virgem aos deuses russos não é aceita com facilidade pelas platéias acostumadas a aplaudir o estritamente conhecido.
Em setembro de 1913, os Ballets Russes excursionam pelo Rio de Janeiro e Buenos Aires. Por ser uma viagem marítima, Diaghilev não veio. Atormentado pelos ciúmes, Nijinsky casou-se precipitadamente com uma das bailarinas da companhia, Romola de Pulszky, mulher determinada que passa então a controlar a vida do marido.
Ao saber da notícia, Diaghilev demite Nijinsky, dando ensejo aos problemas mentais do bailarino. A tentativa de Nijinsky de montar seu próprio grupo sucumbiu 16 dias após o início. Durante a I Guerra Mundial esteve internado em um campo de concentração na Hungria, de onde só saiu em 1916 por intercessão de Diaghilev. Dançou pela última vez em 1919, aos 29 anos. A aceleração de seu desequilíbrio mental fê-lo sofrer por aproximadamente dois anos antes que a morte viesse estender-lhe braços amigos.
Arte Livre
REGINA BONAVITA - 8:36 PM
Abril 19, 2005
LAVOURA ARCAICA
Lavoura Arcaica é uma belíssima poesia de 2 horas e 45 minutos de duração. Dirigido com magistral sensibilidade por Luiz Fernando Carvalho, este é um filme que consegue ser corajoso e inovador sem tornar-se hermético. Ao contrário: como toda boa poesia, ele permite várias leituras diferentes, apostando na inteligência do público, que é levado a fugir da postura de espectador passivo e a assumir uma atitude mais ativa, participativa.
Adaptação fiel do livro homônimo do paulista Raduan Nassar, Lavoura Arcaica gira em torno de André (Mello), que, esmagado pelos próprios impulsos sexuais e ambições de liberdade (condenados pela conservadora comunidade em que vive), mergulha em um implacável cotidiano de auto-flagelação espiritual, renegando a própria 'impureza', mas ciente, de alguma forma, de que tem o direito de exprimir seus desejos ¿ o que o leva a fugir de casa. Aliás, o filme já começa com uma cena forte em que vemos o protagonista aparentemente se masturbando (digo 'aparentemente' porque, pouco mais tarde, descobrimos que ele também poderia estar sofrendo convulsões resultantes de um ataque epiléptico ¿ o que já ilustra um dos temas do filme: a tríade 'prazer-pecado-castigo').
Para contar esta história, Luiz Fernando Carvalho utiliza sua câmera de maneira diligente, mergulhando na psique dos personagens e ilustrando o estado emocional em que estes se encontram (através de distorções na imagem, por exemplo). Ainda seguindo esta estratégia, o talentoso cineasta abusa dos closes fechadíssimos, como se procurasse investigar, através da proximidade com o rosto dos protagonistas, a própria alma destes. Além disso, Carvalho se revela um verdadeiro pintor, criando composições de quadro maravilhosas ¿ sendo auxiliado, nesta tarefa, pela ótima fotografia de Walter Carvalho.
Apesar de seu ritmo pausado, calmo, Lavoura Arcaica jamais deixa de surpreender o espectador graças às inúmeras maneiras que encontra para expressar, através de imagens, todos os sentimentos e intensos conflitos morais/psicológicos experimentados por seu trágico herói. Um belo exemplo pode ser encontrado na cena em que o rapaz se entrega a uma prostituta: em primeiro plano, vemos a sensual e serpenteante fumaça de um cigarro que se queima, enquanto, ao fundo (e fora de foco), o casal de amantes se entrega ao sexo. A riqueza desta tomada impressiona por sua simplicidade, já que ilustra, simultaneamente, a ânsia sexual de André (o fogo do desejo) e seu castigo por fugir do que pregam seus valores (o fogo do inferno).
Até mesmo a paixão desmedida do protagonista pela Natureza revela-se, com o tempo (e logicamente), como um símbolo de sua própria natureza pessoal, de seus próprios impulsos ¿ não é à toa que, embevecido pela visão da dança de Ana (Spoladore), ele tira os sapatos e mergulha os pés na terra fofa (gesto que se repete em diversas ocasiões). A metáfora de sua comunhão com a N(n)atureza, aliás, também é brilhantemente representada na seqüência em que vemos, em ações paralelas, o André-criança capturar uma pomba, enquanto o André-adolescente consuma sua obsessão por Ana (o que ocorre, apropriadamente, em um aposento cujas janelas são bloqueadas por grades). E concluir a representação deste ato sexual proibido com a forte imagem de um arado cortando impetuosamente a terra é a decisão perfeita. (Antes que alguém critique meu 'liberalismo' com relação ao incesto cometido pelo casal, devo dizer que, em minha opinião, este é meramente um recurso dramático que Nassar utilizou para frisar seu ponto de vista: massacrado pelo extremo da repressão, André obviamente se rebela através do extremo da profanidade).
Esta polarização entre liberdade e repressão, simbolizada pelo conflito Natureza-Religião, acaba resultando na cena mais importante de todo o filme, quando André, desesperado pela rejeição, profere um violento discurso em frente a um pequeno altar, postando-se entre a imagem de uma santa (Religião) e um vaso de flores (Natureza) ¿ num retrato vivo de seu conflito interior (o mais interessante, no decorrer da cena, é observar o destino do vaso). Igualmente curiosa é a frase que o rapaz diz ao confrontar a amada: 'O teu amor, pra mim, é o princípio do mundo' ¿ que também representa este dilema ao substituir a Gênese (Religião) por seu amor (Natureza).
Representações gráficas à parte, o fato é que o roteiro, escrito pelo próprio Luiz Fernando Carvalho, também conta com diálogos fortes e igualmente poéticos, como a explicação de André sobre a disposição, à mesa, dos membros de sua família ('O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as raízes; já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se a mãe, que era por onde começava, fosse uma protuberância mórbida pela carga de afeto'). Destaca-se, também o amargurado confronto entre pai e filho que ocorre no ato final do filme ¿ único momento em que o conflito é claramente vocalizado (e soberbamente interpretado por Selton Mello e Raul Cortez, numa cena repleta de cuspe e lágrimas).
Por incrível que pareça, até mesmo o título deste filme se presta a interpretações: no início da projeção (e no cartaz), ele é grafado como LavourArcaica, ou seja: entre a 'lavoura' (Natureza) e o 'arcaico' (o Conservadorismo, a Repressão), espreme-se o protagonista da história (cujo nome, André, se inicia com a letra 'a'). Talvez eu esteja apenas divagando, é verdade, mas Lavoura Arcaica é uma obra que nos obriga a refletir, que nos impele a estudá-la. E, como eu disse em meu artigo sobre o belo Magnólia, não é maravilhoso quando um filme nos provoca desta maneira?
FICHA TÉCNICA
LAVOURA ARCAICA
Brasil - 2001 - Drama - 163 minutos
Diretor: Luiz Fernando Carvalho
Roteiro: Luiz Fernando Carvalho
Direção de fotografia: Walter Carvalho
Montagem: Luiz Fernando Carvalho
Elenco: Selton Mello, Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros e Caio Blat
Distribuição: Riofilme

REGINA BONAVITA - 8:57 PM
Abril 13, 2005
Besa me !!!
Beijo especial!
Beijo hoje teu lindo coração
Neste dia ao beijo dedicado
O faço com grande ternura e emoção
Cheio de especial significado.
Beijo-te docemente as mãos
Com reverência teus afagos agradecer
Pois o sabes fazer como ninguém
Fazendo minha alma estremecer.
Na ânsia de desejos saciar
Beijo vorazmente teus lábios enfim
Dizendo-te que é lindo te amar
E que despertaste o fogo interior em mim.
Recebe, pois este beijo especial
Oferecido com todo amor e carinho
És para mim uma dádiva celestial
Que alegra e ilumina meu caminho!
13 de Abril (Dia Internacional do Beijo)
Beatriz Kappke
Mais um pouco. Beija-me
Um beijo
Ana Cristina Cesar
que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor "à escuta"
diria meu amor
com gosto de...
REGINA BONAVITA - 3:46 PM
Abril 12, 2005
"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e
sim de sentir, de entrar em contato...
Ou toca, ou não toca".
Clarisse Lispector
Mulher ao Espelho
Hoje, que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.
Já fui loura, já fui morena,
Já fui Margarida e Beatriz,
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.
Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?
Por fora, serei como queira,
a moda, que vai me matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.
Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus,
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.
Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.
publicado em MAR ABSOLUTO - 1945.
Cecília Meirelles
Sem Título
Alguém amou e, amando, encontrou-se.
Quantos não há, porém, que amam para se perderem.
Que seria da razão e do bom senso,
se não houvesse a loucura?
Que seria do prazer dos sentidos,
se por trás dele não estivesse a morte?
Que seria do amor
sem o eterno e mortal antagonismo dos sexos?
Amor não deve pedir,
nem tampouco exigir.
Ele haverá de ter a força
de chegar por si mesmo à certeza
e ao invés de atrair,
passa a ser atraído.
Herman Hesse
REGINA BONAVITA - 11:48 PM
Abril 3, 2005
amor
REGINA BONAVITA - 1:31 AM
Abril 2, 2005
um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto
Paulo Leminski 
REGINA BONAVITA - 6:31 PM
Idades do azar: descubra quais são
e como é possível livrar-se delas
(Fotos: Fundação Japão)
Apesar de todo o progresso da ciência e da tecnologia na atualidade, estatísticas japonesas apontam que a porcentagem de pessoas fazendo yakubarai ¿ atividades para espantar o azar das chamadas idades críticas ¿ chega a 75%. Fique atento: você está na idade do azar?
Yakudoshi (ou a idade do azar)
A tradição do yakudoshi é antiga. Remonta ao século VIII, na China, e está relacionada ao onmyodo: técnica que consiste em determinar a sorte ou o azar das pessoas com base na leitura dos astros, em número de anos e na leitura da sorte pela queima de couraça de tartaruga ou de palitos de bambu. São consideradas idades de azar para os homens 25, 42 e 61 anos. Para as mulheres, o problema está nos 19, 33 e 37 anos. Todos também devem tomar cuidado nos anos anteriores (maeyaku) e posteriores (atoyaku) às idades críticas. As mais preocupantes (taiyaku) são os 42 anos para os homens e os 33 para as mulheres.
Dentre os nobres, a tradição foi difundida pelo especialista Abeno Seimei. Em obras literárias como Os contos de Genji, há descrições de exorcismo dessas idades. Os populares aderiram à tradição a partir do século XVII, na Era Edo. As idades de azar são uma espécie de advertência por se tratarem de fases marcantes na vida, as quais exigem cuidados tanto com a saúde quanto com acontecimentos ruins que envolvem o físico e o emocional, decorrentes de eventos como o casamento, o parto, a educação dos filhos, a construção de casas e outros. Superstição ou não, as mulheres em idades de azar apresentam o dobro do índice de divórcios comparadas às demais. Da mesma forma, registram maior incidência de câncer de mama ou de útero. Fato similar acontece com alguns homens em idades de azar, os quais apresentam maior incidência de câncer de cólon ou de faringe.
Yakubarai (ou exorcismo das idades de azar)
O que fazer para espantar o azar? Os métodos variam de acordo com a região, havendo os que realizam festas de ano novo pela segunda vez no dia 1º de fevereiro ou no equinócio de primavera nos ditos anos de azar. Entretanto, muitos recorrem aos santuários da divindade Ubusuna para fazer purificações ou o ritual de Goma, que, originário do sânscrito, significa orar realizando incineração de oferendas. As orações são feitas lançando-se ao fogo um amuleto com o nome da pessoa, uma tábua com 30 cm de comprimento, arroz, saquê, soja e galhos de uma árvore chamada shikimi (Illicium religiosum). Dessa forma, purifica-se o corpo todo envolvendo-se na fumaça da queima. Para encerrar a cerimônia, juntam-se as palmas das mãos e reverencia-se imagens como a do Fudomyoo (divindade budista). Um amuleto (ofuda) recebido à parte deve ser colocado em um local alto da casa, na direção leste, ou voltado para o sul. Não se deve colocá-lo no oratório de antepassados. São oferecidos o saquê, o moti (bolinho de arroz) e água, que é a fonte da vida. Depois de um ano, o amuleto é levado de volta ao santuário, onde é solicitada uma oração e a sua incineração. Os preços do yakubarai variam entre ¥ 3 e ¥ 30 mil, ou R$ 80 e R$ 800. O efeito obtido é o mesmo; a diferença está no tamanho e na qualidade dos amuletos utilizados durante a cerimônia.
As idades do azar pelo mundo
De acordo com uma publicação da editora Shogakukan Domani de setembro de 98, na Inglaterra são tidas como idades de azar as que contêm o número 4 para os homens e as que contêm o número 7 para as mulheres. O método de exorcismo seria juntar frutos de árvores na mesma quantidade da idade do azar, deixá-los durante três dias e três noites ao ar livre e depois incinerá-los. Na Espanha, os 24 e os 44 anos para os homens e os 14 e os 34 anos para as mulheres são tidos como idades ruins. A forma de se livrar dos males é comer pedaços de carne de cavalo em número equivalente à idade diante de parentes e amigos. Na Turquia, os homens com 23, 43 e 63 anos e as mulheres com 13, 35 e 53 anos estão em idades críticas. Seus parentes e amigos produzem um boneco de barro em tamanho real, vestem-no com uma roupa vistosa e jogam-no no rio ou ao mar. Nessa ocasião, a pessoa em questão deve permanecer em casa.
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http://www.nippobrasil.com.br/2.semanal.culturatradicional/269.shtml
REGINA BONAVITA - 12:10 AM
Abril 1, 2005
Carlos Drummond de Andrade
(...) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
(...) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
(Resíduo)
http://www.releituras.com/drummond_bio.asp
REGINA BONAVITA - 11:04 PM
Seu nome: Regina -[Atrevidamente visitado ]-
Signo: Gêmeos
Cidade: São Paulo
Profissão: Artista Plástica
reginabonavita@globo.com
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-E muito mais...-
-[Música do mês]-
Letra e Tradução é no Vaga-Lume!
-[Curta-metragem]-