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A revolução pela alegria

A breve história de Leila Diniz foi como um terremoto a sacudir os usos e costumes da sociedade brasileira ¿ especialmente nos anos 60, quando ela se transformou no maior ícone da liberdade feminina. O mundo ouvia rock¿n¿roll, o Brasil irradiava a bossa nova e Leila desafiava, enfrentava, estimulava e divertia os brasileiros com atitudes e simbolismo. Como atriz, tornou-se musa do embrionário cinema novo, movimento que propunha o rompimento dos padrões estéticos adotados até então ¿ com base forte no modelo hollywoodiano.

Leiluska, como era chamada pelos amigos, saiu de casa aos 17 anos para morar com o cineasta Domingos de Oliveira, que a dirigiu em Todas as Mulheres do Mundo (1966). Mais tarde, casou-se com o também cineasta Ruy Guerra, pai de sua única filha, Janaína. Sete meses depois do nascimento da menina, Leila morreu no acidente aéreo em que o avião da Japan Airlines explodiu perto de Nova Déli, na Índia. A atriz voltava da Austrália, onde participara do Festival Internacional de Adelaide para promover o filme Mãos Vazias. Leila havia antecipado o vôo de volta por causa da saudade que sentia da filha. Mãe devotada, morreu aos 27 anos e deixou um exemplo para sua geração: Leila viveu a vida com autenticidade, espontaneidade, irreverência, alegria e muita paixão.



"* Sou Leila Diniz, qual é o problema? * Eu seria a maior mulher do mundo se me dedicasse aos homens *Todos
os cafajestes que conheci na minha vida são uns anjos de pessoas. * Na minha caminha dorme algumas
noites, mais nada. Nada de estabilidade. * Quando eu quero, eu vou com o cara. Não tem esse negócio de
ninguém querer, não. Porque eu mando logo tomar no (*). * Já amei gente, já corneei gente e eles
entenderam e não teve problema nenhum. Somos todos uma grande família. * Sempre andei sozinha. Me dou
bem comigo mesma. * Eu tenho pena de homem não poder ficar grávido. * Para mim, tanto faz representar
Shakespeare ou Gloria Magadan, desde que eu me divirta e ganhe dinheiro. * [Sobre o palavrão]: Sem ele não há diálogo, pô!"
(Leila Diniz)

REGINA BONAVITA - 12:44 AM
Atreveram-se:


Dummond...sempre Drummond...



As sem-razões do amor


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.


Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.


Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.


Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


Namorado: ter ou não, é uma questão

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não renumeradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. difícil porque namorado de verdade é muito raro. necessita de adivinhação, de pele, de saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.

Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil, mas namorado mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda, decidida, ou bandoleira: Basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado não é quem não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar. se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter namorado.

Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduiche de padaria ou drible no trabalho.

Não tem namorado quem transa sem carinho, quem acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugida ou impossível de durar.

Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar, de gargalhar quando fala junto ou descobre a meia rasgada; de ânsia enorme de viajar para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer sesta abraçado, fazer compra junto.

Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor.

Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira d'agua, show do Milton Nascimento, bosque enluarado, ruas de sonhos ou musicais da metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de o seu bem ser paquerado.

Não tem namorado quem ama sem gostar, quem gosta sem curtir, quem curte sem aprofundar.

Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim-de-semana, na madrugada ou no meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir com ele.

Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. Se você não tem namorado porque descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e de medo, ponha a roupa mais leve e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras, e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo da sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fadas. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. Enlou-cresça.

Carlos Drummond de Andrade

REGINA BONAVITA - 4:25 PM
Atreveram-se:




Eu nunca fui um escritor profissional. Morreria de fome se fosse viver dos meus livros. Teria de acabar fazendo milhares de concessões. Mas camelô, ah!, isso eu sou bom; vendo meus livros, dou autógrafos e prometo morrer logo para valorizá-los"

Plínio Marcos


Autor maldito de assuntos malditos como homossexualismo, marginalidade, prostituição e violência, Plínio Marcos foi um dos primeiros a retratar a vida dos submundos de São Paulo. É o João Antônio¹ do teatro brasileiro. Nunca cedeu. Impôs, sempre, sua verve sem hipocrisias. Direta, forte e sem arestas. Era, segundo ele mesmo afirmava, "figurinha difícil". Foi, entre as coisas que dele se sabe, dramaturgo, ator, jornalista, tarólogo, camelô de seus próprios livros, técnico da extinta TV Tupi, jogador de futebol e palhaço.

Nasceu em Santos (SP) a 29 de setembro de 1935 e morreu em São Paulo (SP) a 19 de novembro de 1999. Depois de tentar tornar-se jogador de futebol e de trabalhar como palhaço de circo por cinco anos, escreveu, aos 22 anos, sua primeira peça, "Barrela", a qual chegou às mãos de Patrícia Galvão (Pagú), que ficou entusiasmada ao lê-la.

A partir daí e com a ajuda de Pagú, Plínio integrou o elenco de companhias amadoras de teatro. Depois, transferiu-se para São Paulo, no início da década de 60, onde participou da criação do Centro Popular de Cultura da UNE (União Nacional dos Estudantes).


Conto: SOMENTE UMA VEZ NA VIDA


O perereco aconteceu numa fábrica de sabão que ficava lá na Linha Forte Augusto, no Bairro do Pau Grande, bem na divisa do Sovaco da Mula, em Santos. A curriola que pegava no batente na fábrica aproveitava a folga do almoço e batia uma bolinha. Esse lance tinha duas serventias pra eles: ajudava a enganar o estômago, que sempre chiava com a pouca bóia, e refrescava a cuca. E era assim que a moçada escorava o repuxo e ia levando pra frente.

Mas, um dia, no meio de um bafo de boca, apareceu a idéia de tirarem um racha entre casados e solteiros, a valer barril de chope e tudo. A turma se ligou nesse lance escamoso. Foi uma animação. O Zé do Sebo ficou de juntar a patota argolada e o Tiziu ficou de cuidar dos solteiros. E partiram pra organização. Arrumaram camisas emprestadas, bola, apito, campo e os cambaus. Fizeram vaquinha pra comprar o santo chopinho. E se plantaram à espera do grande domingo do jogo.

Porém, no sábado, véspera da pelada, entrou areia. O Zé do Sebo foi fazer a escalação dos casados e se tocou que na sua banda, entre viúvos, ajuntados e regulamentados com papel de cartório, só dava dez. Como de saída já haviam feito o trato de que não valia laço, só podia jogar quem trabalhasse na fábrica, a barra ficou suja. Os casados se lamentaram paca. Foi um bochicho sentido. Mas o Zé do Sebo deu moral:

¿ Num tem nada, gente. Nós vai lá com dez mesmo e belisca esses solteiro assim mesmo.
Esse plá azedou o ambiente. Pro Tiziu, chefe da banda livre, os inimigos virem com dez era um esculacho. Por isso, deu o estrilo:
¿ Aqui, ói, que cês vem com dez! Depois a gente ganha e cês vão avacalhar a guerra espalhando que a gente jogou com mais gente. Ou vem de onze, ou não vem.

Aí empacou o troço. Teve mil papos. Estudaram mil fórmulas. Os casados queriam que o jogo fosse dez contra dez. Mas não deu pé. Os solteiros, além dos onze titulares, tinham uns oito reservas. Todos tinham dado grana pro chope e queriam jogar. O Tiziu propôs passar o Sarará, que estava ameaçando casar no fim do ano, pro outro time, mas ninguém topou. Nem o próprio Sarará gostou da idéia. Pra botar pra baixo, ele mesmo falou:

¿ Nós tá combinando de se amarrar, mas não tá amarrado. Eu num entro do lado casado, porque pega mal pra moça. De repente, num dá certo e cumo é que fica a cara dela? Ela é moça ainda.
Foi aí que o Bacalhau desencalhou a chata. No meio da bobeira geral, perguntou:
¿ Vale corno?
Ninguém se abriu. Então, ele foi em frente:
¿ Se vale, convida o Seu Manoel Gerente.

O alô foi aceito. Formou-se uma comissão de casados pra ir falar com o homem. E se mandaram. Logo que chegaram, explicaram o lance e o Seu Manoel se aliviou. Ele, quando viu a curriola chegar, pensou que era pedido de aumento, ameaça de greve e tal e coisa. Metido dentro do assunto, virou todo simpatia. E, todo à vontade, engrenou um discurso:

¿ Nunca joguei bola. Nunca. Minha vida tem sido só trabalho, trabalho e mais trabalho. Comecei do nada. E, com esforço, cheguei onde cheguei. Nunca me diverti, só trabalhei.
E, depois de um suspiro, concluiu:
¿ Bem que minha mulher me diz que preciso me divertir um pouco de vez em quando...

Era a deixa esperada pela patota. Apertaram um pouco e o homem aceitou. Mesmo porque era uma bela oportunidade para mostrar pra mulher que, apesar do importante cargo de sabujo do patrão, ele era tão querido pelos operários a ponto de ser convidado pra uma pelada de confraternização. Aceitou, mas fez questão de deixar bem claro:

¿ Eu nunca joguei bola. Nunca. Nem assisti a uma partida.

O Zé do Sebo explicou que ele ia ser ponta-esquerda, fazer número e pronto. Os casados ficaram completos. O perereco engrossou no lado dos solteiros. Quando souberam que Seu Manoel ia ser ponta-esquerda, todos quiseram ser escalados de lateral-direito. Foi uma zorra. Mas a posição ficou com o Miguel Soneca, que era quem tinha sido mais descontado no ordenado naquele mês e estava, na opinião dos outros, com mais direito de descer a biaba no Seu Manoel.

E foi nesse clima que o jogo teve início. Seu Manoel Gerente entrou em campo com toda a corda. Corria pra todo lado como uma besta. Ás vezes, a bola ficava pra ele e aí ele dava um bico pra qualquer lado. Não era fácil o homem. A torcida já estava começando a se aborrecer com o Miguel Soneca, que não acertava o bruto. Mas não era por falta de vontade do Miguel. Ele ainda não tinha tido chance. O gerente parecia vaca brava. Demorou pra cansar. Somente no segundo tempo é que ele parou. Encostou na ponta e ficou. Mas, a bola não ia lá. E o Miguel não era doido de ferrar o homem sem ser na jogada. Porém, de repente, uma bola espirrou na ponta. O gerente, todo sem jeito, levantou a perna e sem querer matou a bola. Foi uma algazarra. A torcida até aplaudiu. Seu Manoel se entusiasmou. Quis fazer bonito. Armou o bico e tacou o pé. Nessa hora, o Miguel solou.

Foi lenha. Seu Manoel empacotou. Rolou no chão gemendo de dor. O Miguel Soneca, pra disfarçar, foi chamar a ambulância. No hospital, confirmaram que a perna estava quebrada e tacaram gesso no homem. Ele só soube chiar pro médico:

¿ Eu vou ficar aleijado, doutor?
O médico fez ar grave e sacou:
¿ Não! Mas nunca mais poderá jogar futebol.

leia mais:

Plinio Marcos




REGINA BONAVITA - 10:24 PM
Atreveram-se:

Meu nome: Regina
Signo: Gêmeos
Ascendente: Gêmeos
Cidade: São Paulo
Profissão: Artista Plástica e astróloga


reginabonavita@globo.com


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